"Viremos a ter jogadoras e, ou, jogadores, a disputar torneios internacionais em Montemor"
Noticias de Montemor (NdM) – É ainda possível olhar para este torneio e ver um pouco daquilo que representa este 8.º Ladies Open (LO)...
Carlos Tojo (CT) - Iniciámos no sábado passado, com o qualifying e esse é um dos primeiros aspectos positivos que devemos realçar: o facto de termos tido, nesta oitava edição, um maior número de jogadoras a disputarem a prova de acesso. Tivémos 42 jogadoras, desde sábado até segunda-feira, que disputaram os oito lugares que dão acesso ao quadro principal e esse é o primeiro aspecto de realce. Um segundo aspecto, que me parece interessante , é que o número de jogadoras portuguesas tem continuado a evoluir e esta é, de longe, a edição em que há mais jogadoras portuguesas que disputaram, quer o qualifying, quer que tiveram entrada no próprio quadro principal
NdM – A política de atribuição de wild cards continuou a ser a mesma de outros anos?
CT - Existiram e, no fundo, a política mantém-se a mesma. É a de atribuição dos wild cards, que o clube tem, a jogadoras portuguesas ou luso-descendentes, privilegiando, sempre, o acesso a jogadoras portuguesas, porque é esse o objectivo de realizar este torneio aqui. Para quem não conhece tanto da história, os torneios de 10 mil dólares são a rampa de entrada no Circuito Internacional de Ténis (CIT). Portanto, o objectivo do Clube de Ténis de Montemor-o-Novo (CTM), quando organiza esta prova, é, por um lado, dar a possibilidade às jogadoras portuguesas de terem esse nível competitivo e, por outro lado, para podermos trazer à cidade de Montemor um ténis de outra qualidade e interessar cada vez mais as pessoas para a prática desta modalidade.
NdM – Já que falamos da presença de pessoas neste torneio: Como vê a adesão das pessoas aqui ao recinto nestes dias de torneio?
CT - Eu acho que, fazendo um pouco o balanço daquilo que têm sido as sucessivas edições do LO, aquilo que todos nós notamos é que, cada vez mais, este torneio se integra na vida da cidade. Cada vez há mais gente que vem ao CTM neste período, para ver alguns jogos. Por outro lado, parece-me que a população, cada vez mais, conta com este torneio, como um período diferente, em que há muito mais gente na cidade e há muito mais cor, tendo em conta a multinacionalidade dos países que temos sempre em prova. É outro dos factores que me parece extremamente positivo de realçar que é o facto do dinamismo económico que um evento destas características e num período de cerca de dez dias, que traz cerca de 100, 150, 200 pessoas dos vários cantos do mundo, dá à cidade; e, só para dar um exemplo, temos jogadoras da Tailândia, da China, do Japão, da Rússia, canadianas... no fundo, temos gente um pouco de todo o lado e isso é importante para a região, para além da dimensão económica que isto representa. Tendo em conta que os alojamentos nesta época ficam praticamente esgotados em Montemor e também a dinâmica que representa nos próprios restaurantes e na vida da cidade.
NdM – Este torneio começou por ser o Crédito Agricola Ladies Open. Agora é só LO, dado que a Caixa de Crédito Agricola deixou de ser o principal patrocinador. No que diz respeito aos 10 mil dólares, presumo que seja mais complicado arranjar o dinheiro, hoje em dia.

CT - Os patrocinadores existem nos vários momentos da vida dos eventos. Começou, de facto, por ser o Crédito Agricola Ladies Open. Depois essa parceria mantém-se ao nível da publicidade, mas não ao nível do “sponsor” principal do evento. Neste momento temos conseguido minimizar essa dificuldade, conseguindo aliar ao torneio algumas entidades oficiais que têm reforçado a sua presença do ponto de vista financeiro e, por outro lado, mantendo um conjunto muito vasto de pequenos empresários, comerciantes da cidade que, através dos placards publicitários que estão expostos nos courts, nos vão ajudando a conseguir criar as condições para a realização deste evento.
NdM - Conseguir agora os 10 mil dólares não é, agora, quase, e passo a expressão, “rés vés, campo de Ourique”?
CT - Eu não colocaria as coisas assim, porque um torneio internacional é um torneio que tem outras implicações para além do prémio monetário que está em causa. E posso dizer-lhe que nós temos de ter, neste torneio, cinco árbitros, três dos quais são internacionais. E este ano, um dos árbitros que está aqui, a Mariana Alves, é seguramente um dos árbitros mais cotados a nível nacional que na semana passada teve a arbitrar uma meia-final em Roland Garros. Isto só para se perceber que, para além dos custos com o prize-money, há um conjunto de custos associados à organização. Há um fisioteraputa que está em permanência nas instalações do clube durante estes dez dias; há um médico oficial do torneio; há muitas outras coisas que se têm de arranjar para que, um evento com esta dimensão, se possa realizar. Para além dos custos que já são diários, com a manutenção do próprio clube, para que o possamos apresentar com esta qualidade, não só durante este período, mas durante todo o ano. Isto também acabam por ser custos adicionais. Isto, para dizer que, o orçamento de um torneio, com estas características, vai muito para além dos 10 mil dólares.
NdM – Falava do crescente número de participantes no qualifying. O facto do torneio se continuar a realizar em dez dias não começa a deixar o calendário um pouco apertado? Se o número de participantes continuar a aumentar não terá de aumentar, também, o número de dias?
CT - Naturalmente. Se continuarmos a evoluir desta forma, é natural que o qualifying tenha de vir a ter mais um dia ou dois para permitir a disputa dos jogos todos. Mas esperamos que isso venha a acontecer, porque será, sem dúvida, um bom sinal. É sinal que, após um conjunto de edições, as jogadoras começam a conhecer, cada vez mais, este torneio. Posso-vos dizer que, exceptuando as portuguesas, das jogadoras estrangeiras, temos, talvez, três ou quatro que estiveram cá o ano passado. Por isso temos cerca de 50 jogadoras novas, que vêm pela primeira vez a Montemor e que, uma das razões por que vêm a Montemor, tem a ver com a qualidade deste torneio. É que, as jogadoras, entre si, vão passando palavra. Ou seja, este é um evento que está integrado num CIT; estas jogadoras vão-se encontrando em torneios, em Portugal e noutros sítios do mundo. E, normalmente, aquilo que acontece, é que só se conseguem manter torneios que mantenham, pelo menos, duas características essenciais. Uma, que é conseguir apoios financeiros para a sua realização. A outra, que demonstrem uma qualidade que permita a sobrevivência, tendo em conta que a nível do CIT há cada vez mais torneios. É a Federação Internacional que limita a entrada ou saída dos torneios, mas a qualidade é um dos pontos chave, tendo em conta que isto é avaliado. Há relatórios, que são bastante exaustivos, que têm de ser entregues na ITF (International Tennis Federation) e, aquilo que lhe posso dizer, é que em oito edições, nós temos tido sempre uma nota excelente por parte da organização. É essa informação que chega à ITF e são as duas características básicas, e que permitem, no fundo, o aumentar do número de participantes e a manutenção do torneio.
NdM – Este ano, Frederica Piedade aparecia como 1.ª cabeça de série. Acabou por não poder participar. O torneio ficou a perder?
CT - Naturalmente. Eu há pouco dizia que, uma das razões porque nós realizamos este torneio, é para darmos essa oportunidade, às jogadoras portuguesas, de poderem participar em torneios internacionais. A Frederica, como toda a gente sabe, é um dos maiores nomes do ténis nacional, já nos representou, já ganhou este torneio e, este ano, estava inscrita, era a cabeça de série número 1. Entretanto, houve algo que está fora daquilo que se pode prever, que foi o facto de ela estar a disputar um campeonato na Holanda e, na Terça-Feira, no último jogo, se ter lesionado. Ela teria de apanhar o avião para Portugal na quarta de manhã, para estar aqui às seis horas da tarde, a hora a que estava marcado o seu jogo e fomos avisados de que havia uma lesão e ela não podia estar presente. Vai estar aqui em Montemor, a partir de hoje, o que muito nos orgulha e é sempre importante ter grandes jogadores em Montemor, mas infelizmente não pôde disputar o torneio.
NdM - Deve ser também um motivo de orgulho as noticias que chegam de Neuza Silva que já está no Top 300 do Mundo? É um nome com o qual continuarão a contar em próximas edições?
CT - Naturalmente estamos sempre disponíveis para receber todos os bons jogadores. A Neuza está a evoluir na sua carreira e aquilo que eu espero, enquanto desportista e enquanto português, é que ela demore alguns anos a voltar a Montemor. Seria sinal que estaria em torneios de um nível muito superior a este e, portanto, para nós, portugueses, seria muito bom que a Neuza continuasse a ter muitos sucessos na sua carreira.
De qualquer forma, para nós, como a Frederica, é sempre um grande orgulho ter as melhores jogadoras portuguesas presentes. Nesta oito edições, um dos marcos que acaba por ser comum, é a presença sistemática das jogadoras portuguesas que integram a Selecção Nacional, aqui em Montemor, durante este período. Tivémos aqui a Magali a jogar. Infelizmente estava a ganhar e lesionou-se. Foi obrigada a desistir porque, humanamente, era impossível continuar. Mas, para além dela, temos sempre todos os elementos da Selecção Nacional. Este ano, à excepção da Neuza, que não estava, que tinha acabado um torneio em Madrid de categoria superior. Mas para nós é sempre importante que as melhores jogadoras nacionais escolham Montemor para participar no torneio.
NdM – Onde algumas delas começaram a dar alguns passos...
CT - A Frederica, por exemplo, foi o primeiro torneio de 10 mil dólares que ganhou em Portugal. Foi aqui. De alguma forma isso acaba por criar sempre uma ligação muito especial. A própria Ana Nogueira, quando foi vencedora aqui, penso que também foi o seu primeiro torneio internacional conquistado.
NdM – Olhando como adepto, e do que tem visto dos jogos, não sei se gostaria de destacar algum nome estrangeiro ou, preferencialmente, nacional, neste 8.º Ladies Open?
CT - Eu destacaria dois aspectos que, me parece, são importantes salientar. Um deles, o facto de todas as jogadoras que integram o quadro principal, serem jogadoras com ranking internacional. Isso significa que o nível do torneio está muito mais forte que aquilo que foi noutras edições. Depois não gostaria muito de estar a destacar, individualmente, as jogadoras, mas irei fazer uma referência porque, me parece, é justa, que é o facto de termos tido a Bárbara Luz, que é uma menina, portuguesa, com 14 anos, a quem foi entregue uma wild card para poder participar no quadro principal. Perdeu, mas isso não era tão importante assim. Tendo ela 14 anos, isto era muito mais a possibilidade de passar três ou quatro dias no ambiente dum torneio internacional. No fundo, prepará-la para aquilo que vai ser um futuro risonho que vai ter à frente, tendo em conta a qualidade do ténis que já apresenta. Faria só esse destaque porque acho que é essencial que existam algumas novas jogadoras que tenham essa oportunidade e como dizia à pouco, queremos que Montemor continue a ser um marco e que marque as jogadoras novas, nacionais, para poderem vir a ganhar aqui e noutros torneios.
NdM – Há perspectivas de este torneio vir a subir de categoria, no que ao prize-money diz respeito?
CT - Não. E não é esse o objectivo. Deixe-me dizer-lhe que este internacional que nós realizamos insere-se numa estratégia que o clube tem de divulgação e de afirmação a nível nacional e a nível internacional. Porquê? Porque existem neste momento 12 torneios internacionais em Portugal e Montemor tem um deles. E é considerado um dos melhores. Para nós é um grande orgulho e isso insere-se na estratégia de afirmação que, como lhe digo, nós temos. Mas isso insere-se nesta estratégia como último nível. Ou seja: Não faz sentido aumentar o nível do torneio. Não temos jogadoras portuguesas depois a disputar esse mesmo torneio. Nessa mesma estratégia de divulgação que lhe referia, direi que, nessa perspectiva, o projecto do mini-ténis é o instrumento que nós utilizamos para dinamizar e promover o ténis no concelho de Montemor. A escola de ténis é aquilo que utilizamos para afirmar o clube em termos regionais e esperemos que num futuro próximo em termos nacionais. E depois existe este evento internacional para sedimentar a própria imagem do clube. Mas isto faz parte de uma estratégia que foi definida há alguns anos, pelo clube, de dinamização e consolidação daquilo que nós queremos que seja o CTM a nível do Ténis Nacional.
NdM – Relativamente à possibilidade de um torneio de ténis Masculino, deste nível, não há perspectivas?
CT - Nós não temos por hábito, aqui no clube, fechar as portas às possibilidade que surjam. É extremamente complicado, e nós já falámos da questão dos patrocinadores deste tipo de eventos, na região em que vivemos, pensar-se que é possível realizar mais do que um milagre. Nós conseguirmos manter este torneio, tem sido fruto de parcerias que foram estabelecidas, quer com a Câmara Municipal de Montemor, que sempre nos tem apoiado, quer com outras entidades, e continuado a merecer a confiança dos empresários locais que com a sua publicidade estática nos vão permitindo realizar este torneio. Mas não nos parece que seja possível conseguir duplicar isto. Nós devemos ser realistas: aquilo que nos importa é, no fundo, a formação que fazemos e os resultados que vamos obtendo na própria escola do clube. Se um dia o nível e a qualidade dos jogadores, que nós estamos a formar neste momento, alguns deles já são campeões regionais, justificar a existência de um torneio masculino para que eles possam ter a oportunidade de evoluir na modalidade, naturalmente que o equacionamos. Iremos falar com as pessoas que nos ajudam a realizar este torneio e verificaremos quais são as possibilidades de o fazer. Mas isso não é uma prioridade.
NdM – O Clube de Ténis de Montemor vive um momento de grandes conquistas...
CT - Este é o ano em que nos tem sido permitido muito daquilo que temos andado a semear nestes anos todos de existência do clube. Uma das grandes razões do sucesso deste clube é a estabilidade, quer directiva, quer em termos da estratégia definida. Foi definido, no início, que aquilo que era importante, e aquilo que era intenção deste clube era o fomento desportivo, era o criar hábitos de vida saudáveis, era o permitir uma espaço de convívio e de formação, agradável e eficaz e é isso que temos feito. É por isso que realizamos o projecto do mini-ténis e é nesse sentido que a nossa escola de formação trabalha. Neste momento os resultados obtidos e, no fundo, os sucessivos campeões regionais que conseguimos alcançar, é fruto de um trabalho que tem, nalguns casos, dois anos, três anos. As coisas não aparecem de um momento para o outro. Neste momento nós temos atletas que já trabalham connosco há dois, três, quatro anos. É isso que, sem dúvida, depois, faz toda diferença. Digamos que, os grandes sucessos se devem a eles e a todos aqueles que do ponto de vista técnico, administrativo, organizacional, trabalham no clube, que garantem as melhores condições para que eles possam ter sucesso desportivo, depois.
NdM – Para quando uma participante montemorense no LO?
CT - Eu espero que isso venha a acontecer. Aquilo que lhe posso dizer é que esse percurso ainda demorará algum tempo. Nós, neste momento, temos alguns jogadores e algumas jogadoras com um nível muito interessante para a idade que têm. Mas são meninos ainda com uma idade relativamente baixa. Alguns deles foram, inclusivamente, identificados através do programa de detecção de talentos da Federação Portuguesa de Ténis. Têm participado nas provas de triagem a nível nacional dos atletas e, aquilo em que acreditamos é que, se continuarmos todos e, principalmente, eles, a trabalhar com a alegria e com ritmo que têm trabalhado, consigam, cada vez mais, afirmar-se como bons tenistas a nível nacional. E se assim for, mais cedo ou mais tarde, viremos a ter jogadoras e, ou, jogadores, a disputar torneios internacionais em Montemor.
NdM – Objectivos para o que resta deste ano, até ao próximo LO?
CT - Até ao próximo Ladies Open aquilo que esperamos é revalidar os títulos alcançados este ano, nas categorias jovens e, eventualmente, conquistar mais alguns, porque isso dá-nos, já, a garantia que o trabalho de base que tem estado a ser feito continua a ser feito e a produzir resultados. Para além disso, alguns dos nossos tenistas já têm estado a participar em torneios de níveis superiores àquilo que há na nossa região e àquilo que é normalmente o quadro competitivo deles. Essa política vai continuar a ser utilizada, porque um dos problemas do desporto no Alentejo é que é baixo. Portanto ser campeão regional é importante, naturalmente, mas aquilo que verificamos na esmagadora maioria das modalidades é que, quando são confrontados com um nível competitivo superior têm sempre muitas dificuldades. Portanto, o que estamos a tentar fazer, neste momento, é que essa transição seja mais suave. As nossas equipas de competição e os nossos campeões começam a participar, desde já, em torneios de nível superior para que se possam ir adaptando àquilo que são as exigências competitivas a nível nacional.
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